sábado, 23 de julho de 2011

Peter Drucker e o futuro da administração no mundo e no Brasil
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A ênfase central de Drucker é na realização do ser humano. Seres humanos só se realizam sendo produtivos. Organizações são importantes porque são o instrumento para que eles sejam produtivos, e a administração é "a mais importante invenção do século XXI" porque é a disciplina específica para que as organizações cumpram esse papel. Peter Drucker encaixou o homem e o que ele produz na aventura humana maior. Não produtos, não empresas, não tecnologias. Pessoas. Sempre partiu delas. Seu livro sobre a GM dos anos 40, The Concept of the Corporation (O Conceito da Corporação), é um manifesto a favor dos empregados. Já naquela época, Drucker queria que a empresa passasse a vê-los como recursos, não como custos. Sugeriu equipes autogerenciadas, entre outras coisas. A GM não topou, mas, 30 anos depois, pressionada pelos japoneses, teve de seguir suas recomendações a um custo altíssimo.

Para ver o futuro, Drucker.(2002, 72) inspirou-se na dinâmica da história:

Há um século, as pessoas ainda estavam nas fazendas arando a terra. Os artífices trabalhavam sozinhos, ou com um ou dois ajudantes. Quase ninguém trabalhava em organizações, exceto padres, militares, professores grupos muito pequenos. Mas, com o fordismo, isso acabou. Não era mais preciso ter habilidade para trabalhar. A partir daí, as pessoas só conseguiam ser produtivas pertencendo a organizações

Segundo ele Drucker(2002, 73) este movimento está levando o mundo ao:

O papel do capital na economia, hoje, está sendo desempenhado pelo conhecimento. A Revolução Industrial aplicou o conhecimento às máquinas, a revolução da produtividade de Frederick Taylor aplicou conhecimento ao trabalho e a revolução gerencial de meados do século 20 aplicou conhecimento ao conhecimento.

A continuidade desse processo é que está moldando a nova sociedade -- aplicação contínua de conhecimento novo ao que já se conhece. Novas tecnologias não vão "resolver o futuro". O que vai resolvê-lo é tornar o conhecimento produtivo de maneiras originais. Isso é 100% válido para o Brasil.

Conhecimento é portável, transferível, não tem barreiras geográficas. A globalização é uma conseqüência disso. É errado pensar que há um jeito brasileiro de administrar. É errado achar que, por sermos brasileiros, precisamos de conhecimento específico brasileiro, como se nossa produtividade tivesse uma especificidade mulata ou tropical. Como se os brasileiros fossem seres humanos diferentes. Drucker desmontou essa idéia em uma palestra no ano de 1994, depois que alguém tentou argumentar que "aqui no Brasil é diferente". Não é. É igual.

Ele discutiu sempre a vida econômica em termos de valores: integridade, caráter, responsabilidade, deveres, dignidade, significado, qualidade de vida. Raramente seu foco é dinheiro. Critica a "imoralidade" dos altos salários dos executivos. Contesta a noção de que a posse da empresa legitima seu controle. Fala com desdém de companhias que exigem "devoção e lealdade" de seus funcionários. Para ele, isso é "invasão ilegal da privacidade, abuso de poder, usurpação pura e simples". Diz que empresas só existem por delegação da sociedade, e têm de prestar contas a ela. Só se legitimam quando funcionam como veículo para que as pessoas se realizem, não apenas para que seus donos fiquem ricos.

Muitas pessoas ficam a imaginar o que Peter Drucker diria dessa tendência do Brasil de manter o controle das empresas, eternamente, nas mãos de seus donos tradicionais. Nossas práticas de "governança" como mostra um recente estudo da McKinsey disponível na internet não coincidem com sua visão sobre o que deve ser uma empresa. Claro que há justificativas históricas (e recentes) para isso: no pandemônio inflacionário de alguns anos atrás, com congelamentos e planos miraculosos se sucedendo, as empresas tinham de responder com uma agilidade que só a centralização do poder torna possível. Mas será que isso justifica, ainda hoje, a falta de interesse dos empresários brasileiros num tema que é essencial para posicioná-los (e ao Brasil) seriamente diante da comunidade internacional.

Drucker diz: O que derrotou o marxismo foi a aplicação de conhecimento ao trabalho. Quer dizer, foi a administração. O fato, inquestionável, é que graças a isso os trabalhadores começaram a viver melhor. O ideal igualitário marxista naufragou ao colidir com um rochedo de hambúrguer. O segredo que se descobriu foi: trabalhar com mais inteligência é mais produtivo do que trabalhar mais. O que faz alguns países crescer de forma sustentada não são novas tecnologias, novas organizações e novos conceitos gerenciais.

Neste mesmo seguimento Drucker afirma que, O McDonald's e a invenção do fast-food nos anos 50. A Toyota com seu just-in-time nos anos 60. A Southwest Airlines e seu modelo de aviação comercial nos anos 70. As ONGs, os fundos de pensão como investidores, as organizações transnacionais. Conceitos novos são mais importantes que novas tecnologias. O conceito de linha de montagem de Henry Ford e a estrutura da GM com Alfred Sloan, nos anos 20, são mais notáveis do que a tecnologia do automóvel em si. A Dell (just-in-time com computadores) é mais importante que o computador. O hospital é mais importante que qualquer tecnologia médica ou avanço.

Portanto, não se trata de tecnologia. A ênfase não pode ser em tecnologia, um erro que dirigentes brasileiros continuam a cometer. A quantidade de computadores nas escolas ou o sistema operacional a ser utilizado são temas secundários. O que conta é o uso da tecnologia de modo imaginativo. Drucker zombou quando disse: "A GM jogou fora 30 bilhões de dólares investindo em robôs, até descobrir que o que contava não era tecnologia, e sim informação". Nossa concepção de economia (no Brasil e fora daqui) ainda é muito centrada em "coisas". Nossos políticos nos induzem a crer na fantasia de que emprego de verdade é em fábrica. Mas esse tipo de emprego está se tornando crescentemente desimportante. Numa sociedade cuja riqueza vem de bens intangíveis (informação, criatividade e conhecimento), a produção física aumenta, mas a quantidade de pessoas que a produz diminui. Portanto, é urgentíssimo tratarmos hoje das implicações disso.

Segundo Drucker, as pessoas nunca foram realmente importantes na equação econômica. Elas são consideradas custos, não recursos. É o sistema que é importante o one best way de Frederick Taylor, a linha de montagem de Ford, a Qualidade Total de Deming. O sistema é rei porque tem permitido a trabalhadores sem talento e sem preparo se saírem bem. Um operário de linha de montagem não pode ser melhor que a média. Tem de ser medíocre. Atrapalha a produção se não se conformar ao padrão. A nova sociedade da qual o Brasil tem de querer participar como ator, não como figurante é o oposto disso. Nela, o trabalhador vai ser valorizado por seu conhecimento individual. O conhecimento é dele, não da empresa, não do sistema. A empresa precisará mais dele do que ele dela. E não estou falando necessariamente de MBAs ou de diplomas universitários

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Mais de 4 milhões de crianças trabalham no Brasil

No dia 1 de maio comemora-se o Dia do Trabalho. Para além dos debates que tradicionalmente são destaque nesta data, a exemplo da luta histórica pela garantia de direitos trabalhistas, uma outra questão merece ser posta no centro das discussões: o trabalho infantil. Ainda existem, de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2008, mais de 4 milhões de crianças e adolescentes entre cinco e 17 anos trabalhando no Brasil. Dez por cento destas crianças estão no estado da Bahia, segundo análise da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Outros dados da OIT mostram que aproximadamente 217,7 milhões de crianças, entre cinco e sete anos, estão envolvidas no trabalho infantil em todo o mundo. Dessas, cerca de 126,3 milhões estão em condições perigosas de trabalho, pertencendo ao grupo de crianças que trabalham nas piores formas de trabalho infantil.

A Constituição Brasileira estabelece que, até 16 anos incompletos, crianças e adolescentes estão proibidos de trabalhar (Emenda Constitucional No. 20). A única exceção à proibição é o trabalho na condição de aprendiz, permitido a partir dos 14 anos (artigo 7o, inciso XXXIII), para tipos de trabalho que apresentem os requisitos legais para a aprendizagem profissional. Apesar desse arcabouço legal, a proteção aos direitos das crianças e adolescentes ainda está longe de ser garantida na prática.

Ações de enfrentamento

No Brasil, as primeiras ações pelo enfrentamento já mostram resultados. Mais de 300 mil crianças e adolescentes deixaram o trabalho em 2008 na comparação com 2007, segundo a PNAD 2008. Porém, os esforços para promover a erradicação deste tipo de trabalho precisam ser maiores.

Com base nos diagnósticos que demonstram a péssima situação da Bahia frente ao trabalho infantil, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estabeleceu parcerias para realizar uma série de ações no Estado. Junto com secretarias do governo da Bahia, Ministério Público do Trabalho e o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza (MDS), a OIT pretende atingir municípios que possuem sobreposição de indicadores negativos, como índice de exclusão social, grande quantidade de trabalho infantil e de acidentes de trabalho envolvendo adolescentes, além da gravidez precoce.

Provocadas pela OIT, as gestões de 18 municípios, localizados no Território de Identidade Semiárido Nordeste II, elaboraram planos de trabalho para o combate ao trabalho infantil em suas cidades, a partir da realidade local. Tais propostas de ação foram criadas em audiências com a participação de prefeitos, secretários de assistência social e de educação, além de gestores do programa Bolsa Família nos municípios. A OIT e seus parceiros ofereceram apoio para implementação dos planos, que devem conter atividades de fortalecimento institucional, comunicação, avaliação de impactos, entre outras.